7 de abr de 2016

08/04- Dia mundial de combate ao câncer/ Artigo- Câncer: a difícil tarefa de contabilizar as perdas e a sabedoria de reconhecer os ganhos

“O câncer me tirou tudo!” Não raras vezes escutamos frases assim de pacientes e familiares cuja vida foi atingida por essa cruel enfermidade. De fato, enfrentar o câncer, assim como outras doenças graves, é uma árdua batalha.
Mais do que expressar um pensamento, trago neste texto um breve relato do que minha família viveu no ano passado, quando nos deparamos com o diagnóstico dado ao meu pai: câncer no esôfago.
Realmente as “perdas” já começam com a chegada da notícia. Perda de rumo, de certezas e convicções. Surgem os medos e inseguranças, conflitos e questionamentos. A vida passa depressa na cabeça, como um filme. Começa então uma rotina de exames, de idas e vindas a médicos, laboratórios, clínicas e hospitais. Muitas vezes adentra-se, pela primeira vez, neste universo obscuro e distante do cotidiano. Começa uma de corrida contra o tempo.
A vida toma outra direção e passa a ser habitada por pessoas e locais diferentes. Surge um novo vocabulário, complexo e desconhecido, de nomes grandes e esquisitos, laudos, biópsias e resultados. Os dias acontecem dentro de um hospital, numa fila de espera, nas idas e vindas das autorizações, dos agendamentos e cancelamentos.
Sim, perde-se a autonomia de “ir e vir” livremente. Perde-se dias de trabalho, a capacidade de trabalhar e até mesmo o emprego. Perde-se o controle da vida, o controle do corpo. Perdem-se a noção do tempo e a certeza de quanto tempo ainda lhe resta. Vão-se embora os conhecidos e faz doer a perda dos que eram “amigos”.
As roupas já não cabem, perde-se o apetite, o cabelo, a pele corada e a aparência saudável. Perde-se a mama, ou o esôfago, ou o útero, perde-se a voz....
E afinal, realmente perde-se tudo? Não! Não e não!
Sabedoria é conseguir reconhecer os ganhos em meio ao caos gerado pelo excesso de perdas. É enxergar essas perdas como podas que, bem aproveitadas, fazem surgir um broto novo.
O câncer pode trazer o ganho da família que se une, que deixa pra lá pecuinhas e desavenças com aquilo que já não tem tanto valor assim, que divide o fardo e se ajuda mutuamente para que todos consigam seguir em frente.
Ganha-se com lágrimas que não são choradas sozinhas, mas divididas com aqueles que mais amamos. Ganha-se fé, porque nos descobrimos pequenos e frágeis e totalmente dependentes de Deus. Ganha-se com essa presença de Quem nunca nos abandona.
Ganham-se novos amigos e uma nova família: a filha do senhor do leito ao lado, as enfermeiras que se revezam dia e noite nos cuidados, o rapaz que senta ao lado na sala da quimioterapia ou aquela menina que caminha pelo corredor tendo num dos braços a boneca e no outro o equipo.
Ganha-se com as histórias de vida narradas nos corredores do hospital, expressas na prece de quem está ajoelhado na capela ou por quem anda inquietamente na sala de espera do bloco cirúrgico. Ganha-se quando os médicos trazem notícias de melhora e até mesmo da lenta recuperação.
Ganha-se quando se entende que o tempo não é em vão e que cada minuto vale ouro e deve ser aproveitado e vivido como dom precioso. Ganha-se com gestos de generosidade de pessoas desconhecidas, daqueles de quem menos se espera, mas, especialmente, daqueles íntimos que se unem a nós. Ganha-se naquela comida preparada com amor, seguindo a orientação médica para que seja bem aceita pelo organismo. Ganha-se com aquela sobremesa predileta que viajou algumas horas e foi mandada por alguém que faz uma visita. Ganha-se com o desenho de uma criança da família, que na sua simplicidade diz que ama e tudo vai ficar bem, mesmo sem compreender o que se passa.
Ganha-se têmpera e resiliência! Amor e capacidade de amar mais. Ganha-se quando quem está do lado faz de tudo para aliviar um pouco o sofrimento. Ganha-se com uma mensagem de carinho e apoio que chega no celular ou por uma voz embargada no telefone. Ganha-se quando as pessoas se unem numa corrente de oração e fé capaz de devolver o brilho nos olhos. Ganha-se nas gentilezas das pequenas e grandes atitudes.
Enfim, realmente são muitas as perdas e elas são comuns a todos os impactados e atingidos pelo câncer. Já os ganhos não, eles são como pedra preciosa vasculhada e encontrada no garimpo, reservada àqueles que conseguem ir no profundo e ver além.
O câncer já não é mais uma sentença de morte e é possível ficar curado. Mas a luta é ainda muito exigente e o tratamento desgastante. Não é possível vencer sem apoio, sem suporte, sem fé.
E assim, quando e se a pior de todas as perdas chegar, a morte, também neste momento será preciso conservar no coração a certeza do maior de todos os ganhos: a vida eterna. No céu está o nosso tesouro!

*Leticia Sauthier Medeiros é missionaria da Comunidade Canção Nova
Artigo cedido- Departamento de Comunicação- Assessoria de Comunicação- Fundação João Paulo II

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